Biombo Escuro

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O Homem do Norte

por Alberto A. Mauad

12/05/2022; Foto: Divulgação

Os rituais do homem místico animalesco predestinado em sua forma pseudo gamificada

Enquanto os segundos iniciais de O Homem do Norte (2022) ocorrem, Robert Eggers propõe no primeiríssimo plano um vislumbramento de um ambiente primordialmente natural vulcânico no aguardo de uma erupção. Tal imagem finaliza por ressignificar e potencializar o chamado ideal da sua narrativa minimalista: o destino como prisão inescapável e a antecipação pelo que é inerente às raízes da terra. Ao mesmo tempo que, se tratando de uma obra tematicamente nórdica, involuntariamente reflete um simbolismo mitológico, desse estado nativo como provimento de fontes divinas.

Logo, seguindo as consequências da causalidade, o que ocorre nas sequências seguintes nada mais é do que uma forma cíclica, funcionando a partir de uma construção de montagens que passam de diversos rituais, combates e dramatização familiar. Se, no núcleo do longa, reside apenas Amleth (Alexander Skarsgård) tentando vingar a morte do seu pai, acaba que o diretor se preocupa mais com pequenas ações.

Portanto, tal simplificação de uma história épica, ocorre pela maximização de um aparato visual instigante. O filme constrói e propõe quadros completamente computadorizados, tudo em prol de uma inserção na mistificação cabal em que residem todos aqueles significantes expostos por aquela cultura e tempo.

Além disso, esse método acaba representando um molde pertinente e controverso do cinema contemporâneo de alguns cineastas: a gamificação do cinema. Pois, é evidente que O Homem do Norte transmuta, diversas vezes, uma dinâmica típica de gameplay. Não só pelo CGI abusado, mas que vai desde um combate mais brutal, que progride conforme o protagonista vai completando o seu propósito – como nas cenas em stealth e a lógica de boss final, ou e até nos próprios estágios do enredo. Talvez o maior exemplo disso seja o embate do herói para conseguir a derradeira espada fatal na fazenda.

Por falar em combate, não restam dúvidas na construção de Amleth como um ser animalesco, seguindo o seu instinto mais reservado e vivendo para apenas um desígnio. Em vista disso, seu modo de matar é, justamente, bestial. Vemos ele comendo partes de seus inimigos logo após matá-los e se comunicando com criaturas selvagens.

Sendo assim, a ação retém grande poder quando anexada a essa válvula unificada da gamificação, tal qual como algumas características das cenas que se aproximam da sugestão do horror. Até mesmo nos inúmeros rituais, quase como documentários transcendentalmente divinos e cultistas, ele se aproveita em rigor absoluto por saber mesclar um lado mais prático quanto um outro mais computadorizado.

Todavia, é precisamente quando Robert Eggers tenta um drama mais teatralizado que ele acaba quebrando com a sua dinâmica primordial. O encontro das contradições entre algo mais minimalista e de gênero com tentativas de um realismo nas questões familiares do filme rebaixa a imersão das partes de gameplay ou documentais mais estilisticamente prazerosas. Portanto, inconscientemente, o diretor traz ao público um sentimento de espera constante – tal como o fatídico destino do protagonista – de tipos formais inconstantes.

    Alberto A. Mauad

    Redator

    Estudante de cinema na PUC-Rio, redator do Biombo Escuro e cineasta. Tem interesse pelas áreas de linguagem, história e autorismo cinematográfico.