Biombo Escuro

estreias da semana

O Pacto

por Alberto A. Mauad

07/04/2022; Foto: Divulgação

O discurso burguês artístico no cansativo realismo contemporâneo

O Pacto (2021), do Bille August, parte de uma condição embrionária bastante batida em um cinema mundial. Trata-se de uma realismo minimalista contemporâneo, em que há um melodrama pré-existente demasiadamente contido. Percebendo um panorama contextual, notam-se alguns cineastas já consagrados na referida estética, tais quais Hong Sang-soo e Ryusuke Hamaguchi; todavia, como é um estilo muito delicado, há uma margem para equívocos durante a construção da mise-èn-scene que podem revelar uma desarmonização na obra.

Além disso, a fase atual do diretor dinamarquês também é deveras sensível. Já não é um nome enormemente conhecido – e, provavelmente, para boa parte do povo, nunca tenha sido – apesar dos variados prêmios em festivais prestigiados, hoje, suas produções concentram-se mais nas realizações independentes. Ao citar o seu nome, temos já um sentimento nostálgico implícito. Os Miseráveis (1998), é, talvez, o grande longa-metragem adaptado do romance de Victor Hugo. Ademais, existe também Pelle, o Conquistador (1987), vencedor da Palma de Ouro e, até mesmo, de Oscar. 

Considerando isso, O Pacto pode partir de um sintoma positivo: o descomprometimento e relaxamento, não precisando bater expectativas alguma ao público. E até que a produção consegue com êxito exercer um diálogo nas relações sociais burguesas e nos sacrifícios elaborados para o alcance do reconhecimento artístico.

Bille August, à vista disso, constrói esse discurso em um filme baseado na evidência do trabalho de ator. No entanto, ele falha no seu melodrama desde os primeiros momentos, sendo inviabilizado o drama necessário para a potencialização de seu discurso. Os personagens, em inúmeras situações, não parecem saber exatamente o que fazem, a desumanização entra e estabelece algo deveras mecânico e artificial. 

Logo, a fotografia se desenvolve em um modelo clássico de realismo. O que realmente acaba complementando a manifestação inserida na unidade estilística, são os aparentes close-ups na face dos intérpretes. Dando força à questão de uma novela baseada nessas pequenas aparências da burguesia artística. Todavia, o cineasta não explora totalmente a latência fundamental da sua equipe, ficando parecendo, por vezes, que Bille não sabe como pôr o seu conceito dentro do campo fílmico, resultando em uma efemeridade exaustiva.

Apesar disso, há momentos em que O Pacto consegue viabilizar camadas interessantíssimas à sua estrutura expositiva e, inclusive, à história verídica. Como quando a narrativa tenta entrar em lugares sobrenaturais e misteriosos, principalmente, com a figura da Karen Blixen (Birthe Neumann) na sua relação com o protagonista. Não obstante, o tema não é aproveitado no seu comprometimento completo, talvez por um medo de fugir da estética do hiper realismo - de qualquer forma, é uma obra pouco aprofundada em seu estilo primordial.

    Alberto A. Mauad

    Redator

    Estudante de cinema na PUC-Rio, redator do Biombo Escuro e cineasta. Tem interesse pelas áreas de linguagem, história e autorismo cinematográfico.