Biombo Escuro

Estreias da Semana

Como Matar a Besta

por Tiago Ribeiro

27/04/2022; Foto: Vitrine Filmes

O encantamento do realismo mágico latino americano

Agustina San Martín opta por jogar com elementos de realismo mágico em Como Matar a Besta (2021), seu mais recente longa-metragem. A diretora argentina aborda estruturas formais que dialogam com o cinema slow, enquanto embebe o filme com a imanência de um conto de Júlio Cortázar.  Retratando uma história que se passa inteiramente na fronteira entre Argentina e Brasil, Como Matar a Besta aborda através de aspectos da linguagem fílmica os ruídos da comunicação nesse entre lugar, em que as barreiras de linguagem desenham fronteiras que vão além da que separa os dois países. 

A ausência da possibilidade de comunicação verbal povoa o filme com elementos de significação alternativos à linguagem falada. Nesse sentido, as performances se evidenciam através de expressões corporais e faciais, principalmente na silenciosa Emilia, que chega no pequeno povoado de fronteira onde se passa o filme. A dança, a água benta, o sexo, a masturbação, encaradas, a atração, a repreensão e o contemplar da natureza. Todas essas possibilidades de comunicação compõe o inventário das interações de Como Matar a Besta, que toca em temas de amadurecimento e descobrimento sexual.

A fotografia distanciada e predominantemente estática caracteriza os planos abertos desse lugar desolado no qual se passa o filme. A casa da tia de Emilia, onde a protagonista vive, é sempre envolta por uma neblina e cercada por animais. A câmera de Agustina busca a relação com o entorno e com o aspecto inerente da natureza, explorando a condição de vida nas fronteiras e distante dos centros, característica marcante também em Post Tenebras Lux (2012), do cineasta Carlos Reygadas. 

O lugarejo onde se passa o filme de Agustina é tomado por crendices e falsos profetas, como o interpretado por João Miguel, que se posiciona como figura de autoridade diante da população da região. O gênero aparece nesses entremeios, quando estabelece o simbolismo da besta como canalizador do descobrimento sexual de Emilia, explorando as possibilidades do slow cinema para criar um senso de mistério. Esta exploração do gênero se caracteriza como realismo mágico, exercido através da construção de um iconografia mística essencialmente digital, também muito conectado com as características do cinema de Carlos Reygadas.   

O descobrimento e a repressão internas de Emilia se traduzem para a mise en scéne de formas bastante sutis. Tamara Rocca vive essa protagonista silenciosa e inexpressiva, que borbulha por dentro à procura de algo. Da mesma forma que a personagem experimenta essa busca e necessidade de conexão com a própria sexualidade, a exploração da câmera de Agustina também vai atrás de uma conexão com a natureza.

Entre muitas possibilidades de linguagem bem exploradas, Como Matar a Besta peca apenas por cair demasiadamente em convenções formais. Os maneirismo de cinema de arte marcam o longa, estando muito próximo de outros filmes que povoam os festivais de cinema do mundo, e que acaba não trazendo muitas novidades formalmente, soando em certos momentos como um proto Apichatpong Weerasethakul. Mas ainda assim, o retrato que Agustina constrói da busca e da descoberta sexual nas fronteiras junta elementos fílmicos de forma refrescante, existindo entre diversos mundos completamente distintos de significação.

Tiago ribeiro

Editor, Redator e Repórter

Tiago Ribeiro é estudante de Cinema da PUC-Rio, editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.