Biombo Escuro

25ª Mostra de Tiradentes

O Resto

por Luiza Furtado

24/01/2022; Foto: Divulgação

"A senhora consta como falecida no nosso sistema”. Como prosseguir com a própria identidade quando seu nome é alvo de fraude de óbito e consta como de cujus perante aos arquivos da Receita Federal? Esse questionamento, dentre a própria indagação que traz à tona o que significa viver de fato, é o fio condutor que reflete a vida de uma senhora de 76 anos e moradora de Belo Horizonte. 


Dona Iolanda Bambirra passou a maior parte de sua vida fora da capital de Minas, mas retornou a favor dos cuidados de seu pai, já idoso. Não pensava, no entanto, que permaneceria até os dias atuais na cidade, e que teria sua própria história apagada perante um lapso temporal tão fugaz. Sem acesso sequer à sua conta bancária, resta a si uma luta diária na justiça e a tentativa de se retirar o mínimo de alívio cômico em poucos momentos: em uma cena, vai junto com a equipe de produção até a sepultura onde tecnicamente estaria enterrada.

Mas da mesma forma que teve sua potência de vida reduzida pelo Estado, acabou passando pelo mesmo com o próprio retrato realizado no documentário que narra sua história. Aquilo que poderia resultar em um detalhe mais intimista da vida de Bambirra torna-se uma peça com poucos atos quase desconectados. Somos introduzidos ao seu conflito diário, conhecemos um breve momento de sua rotina e logo saltamos para uma conclusão taciturna de sua vida. Eis a falência do próprio digital.

Luiza Furtado

Redatora

Estudante de Cinema da PUC-Rio. Redação e pesquisa em audiovisual. The sweet offering.