Biombo Escuro

festival do rio

Os Primeiros Soldados

por Bruna Britto

17/12/2021; Foto: Divulgação

Os rituais de celebração da vida na virada do ano são um momento de expectativas, medo e fabulação do passado. No início de Os Primeiros Soldados, de Rodrigo de Oliveira, Suzano (Jonnhy Massaro), Rose (Renata Carvalho) e Humberto (Vítor Camilo) não glorificam o réveillon de 1983 para 1984 como os outros em Vitória. Rose, é a estrela da boate gay Genet - um safe place para a comunidade LGBT e referência ao ícone marginal Jean Genet - , e escolhe uma música triste para cantar antes da contagem regressiva, um show dramático pouco compreendido em meio à euforia da festa. Humberto, trabalha filmando o show e virada do ano na boate, e Suzano, foge de qualquer celebração coletiva para passar sozinho, acompanhado de um mapa, em um sítio no próprio Espírito Santo - onde fica o resto de sua vida junto de Rose e Humberto, os três com uma doença que não sabem o que é, experimentando por conta própria todos os tipos de remédios e passando por ápices de esperança e desilusão.

Os personagens gravam o processo de tratamento que têm no sítio, e essas cenas, mais experimentais e intimistas, são incorporadas à estrutura mais formal do filme e ganham extremo destaque estético e narrativo, já que são criações artísticas e frequentemente performáticas dos personagens. São cativantes e  criam uma relação de carinho e de busca de não perderem quem são: não resumirem-se a corpos doentes. Está aí uma crítica ao tratamento cruel e insensível dos relatórios médicos diante da fragilidade de uma doença, e a possibilidade de vida diante da morte. Com todo o sofrimento de uma doença que degrada o corpo e a mente, os três criam fantasias e possibilidades diante dela, como o final da música modificada por Rose no início do filme de “Não dar pra ser Feliz” pra “Vai dar pra ser feliz” (Um Homem Não Chora).

 O filme cria uma dinâmica de dois universos diferentes, dentro do sítio e fora do sítio, que quando misturados ou em contato, entram em uma estranheza de comunicação. Só Suzano, Rose e Humberto conseguem entender o que estão passando e naquele ambiente específico, contagiados por um afeto só compreensível por eles, por melhores que sejam as intenções de quem está fora e que desconhecem a doença. O sobrinho de Suzano, Muriel (Alex Bonini), quando questionado do porquê revisitar as fitas, diz que alguém tem que assistí-las - uma forma de demonstrar a importância dos arquivos e que a negligência de revisitar a dor pode causar um apagamento histórico. Negligência que talvez seja consequência do medo de um contágio simbólico, também retratado no filme quando Suzano distribui polaroids de suas feridas na boate.

A Tumba do Soldado Desconhecido é uma reminiscência em diversos países e homenageia os soldados anônimos que morreram na guerra, sem terem seus corpos identificados. Essa ideia é passada em Os Primeiros Soldados, com pessoas sendo experimentos do HIV, em um front de guerra em que ainda em vida, já eram dados como descrença e medo. Assim como o Soldado Desconhecido, Rodrigo de Oliveira criou um monumento em meio a pouquíssimos filmes brasileiros que retratam a epidemia da AIDS, até hoje um tema socialmente abafado, (e ainda associado) a pessoas LGBTQ+. O filme mostra o lado injusto, as escaras, o contágio e a violência que podem ser consequência de ser LGBT, mas também a exalta, a partir das singularidades e carinho, revelando um filme mais sobre vida do que sobre morte, e o cuidado entre os mesmos, em face ao descuidado do mundo.