Biombo Escuro

27º Festival É Tudo Verdade

Um Jóquei Cearense na Coréia

por Tiago Ribeiro

09/04/2022; Foto: Divulgação

A celebridade de um brasileiro em terra estrangeira

Há diversos pontos de partida para interpretar Um Jóquei Cearense na Coréia (2022), novo filme de Guto Parente e Mi-Kying Oh. O longa-metragem que estreia mundialmente no 27º Festival É Tudo Verdade, em sua superfície, funciona com a estrutura de trabalhos jornalísticos para televisão sobre atletas. No entanto, o novo filme do co-diretor de Inferninho (2018) aborda um esporte pouco afeito às transmissões televisivas mais comerciais, as corridas de cavalo. E é pela ausência desse foco de atenção tão vivo em outros esportes que Um Jóquei Cearense diverge de Senna (2010), por exemplo, sendo muito mais contido.

A câmera de Parente e Oh tem interesse na aposta que Antonio Davielson fez ao partir para a Coréia do Sul, buscando entender o fenômeno que perpassa a celebridade do jóquei cearense, ao mesmo tempo em que convive com a família tentando entender as dificuldades e adaptações necessárias para se viver em um país com cultura tão distinta da brasileira. O fascínio pela figura de Davielson é notório, principalmente quando o documentário habita o espaço dos grandes estádios de Seul onde são organizadas as corridas. Já no início do filme, em uma série de tomadas que dialogam com a linguagem televisiva das coberturas desses eventos, vemos o brasileiro em seu melhor elemento, em alta velocidade e guiando seu cavalo com maestria. A adrenalina da competição pulsa por essas sequências. E tudo se encaixa quando Davielson menciona Ayrton Senna como sua grande inspiração, dizendo que ao ver o brasileiro correr tão rápido fez com que ele quisesse fazer algo parecido. 

O que não está para dizer que Um Jóquei Cearense continue sempre no ritmo frenético e veloz das corridas. Muito pelo contrário, rapidamente já somos levados para os bastidores das corridas, e começamos a ouvir e a observar Davielson de frente com o ecossistema das corridas sul coreanas, com todas as dificuldades de linguagem e discrepâncias culturais. Nessa esfera pública, Davielson parece confiante e naturalmente se destaca por ser tão dominante no esporte em que pratica.

Entretanto, os momentos que realmente separam esse documentários das produções televisivas sobre esportes é a interação com o ambiente familiar de Davielson. Ouvimos a perspectiva da esposa do jóquei tanto quanto a dele mesmo, e somos convidados a conhecê-la e também a filha do casal, sabendo um pouco mais sobre suas dificuldades e temores. Mas no geral, o filme evita esboçar maiores contornos e sugerir conclusões sobre a condição de imigrantes dessa família na Coréia do Sul. Essa relutância prejudica o filme, que privilegia a visão da celebridade do jóquei, em detrimento das dificuldades e tensões de se viver em terra estrangeira.

A questão da imigração é um dos grandes temas da modernidade e do cinema. Minari(2020), de Lee Isaac Chung, evidencia em seu drama histórico as dificuldades e desafios que pesam sobre imigrantes que têm que se adaptar às imposições de um novo lugar. Parente e Oh encontram em sua investigação algumas sugestões dessas dificuldades, e de como isso afeta Davielson e aqueles que os cercam, mas nunca chegam a desenrolar esses fios. Acabamos conhecendo o jóquei e sua família, convivemos com o jóquei nas corridas e no fervor competitivo, mas não entendemos sua condição dentro desse lugar novo.


Tiago ribeiro

Editor, Redator e Repórter

Tiago Ribeiro é estudante de Cinema da PUC-Rio, editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.