Biombo Escuro

festival do rio

UM HERÓI

por Tiago Ribeiro

12/12/2021; Contém Spoilers; Foto: Divulgação

Em mais uma encarnação de seu naturalismo dramático, o diretor iraniano Asghar Farhadi entrega em Um Herói (2021) um filme que utiliza-se da realidade de seu país para elaborar sobre um tema universal da modernidade. A ascensão e a queda de Rahim (Amir Jadidi), um homem encarcerado por excesso de dívidas, separam o filme em duas partes perfeitamente complementares. Quando um sistema corrompido se apropria de um ato de valor, ele o distorce a ponto de esvaziar qualquer nobreza que possa restar nele. 

Farhadi conduz seu personagem por dois extremos, criando momentos de extrema força dramática, extraída principalmente da força e inteligência do roteiro. Não há o intuito de esconder os motivos escusos e as falhas de seus personagens. Principalmente Rahim, que só decide realizar o seu gesto nobre, de devolver uma bolsa com moedas de ouro, na expectativa de ser recompensado de alguma forma. Não há inocência em nenhum ser humano, nem no filho de Rahim que sofre com uma severa gagueira, e nem mesmo em sua namorada (Sahar Goldust), que concorda em cometer fraude pelo mesmo. Toda ação parece suspeita na realidade do filme. E a tensão entre a inexistência da inocência e necessidade de retratá-la concretiza-se no interesse que a mídia toma por Rahim, que decide criar uma narrativa. Inventar um herói. 

As cenas que assumem uma linguagem televisiva são as únicas em que se transparece a artificialidade inerente das ações do filme. Elas têm maior saturação e até certa comicidade no comportamento de Rahim, que reconstitui um evento que sabemos ser mentiroso. O sistema também toma interesse na “história” de Rahim, e se aproveita dele com extremo oportunismo, transformando-o num símbolo de luz que ofusca as trevas. 

Mas tudo que sobe, tem que descer. A história contada por Rahim começa a se desfazer diante de suas mãos, e Farhadi nos leva em uma investigação sobre os fatos reais do ocorrido, que agravam a nebulosidade do evento conforme a reputação do protagonista começa a ruir. A reputação criada e a reputação destruída, é nessa separação que o filme inicia sua queda. A mesma bondade imaculada que foi criada na valoração da atitude principal do filme, ruiu em sua própria constituição. Criou-se um herói, e eles não existem no mundo real, apenas no mundo das narrativas. Esse choque culmina em sérios confrontos de Rahim com seu credor (Mohsen Tanabandeh), que também expõe seu lado dos fatos e os erros cometidos pelo protagonista no passado. Criam-se tantas narrativas e pontas soltas no caso da devolução da bolsa de ouro, que a própria concretude das imagens que nos mostraram a ação começam a se distorcer, levando o espectador a questionar o que foi visto.

Em uma realidade atual na qual nenhuma reputação está a salvo do escrutínio do público, Um Herói retrata um drama inteligente sobre essa tendência moderna do tratamento dos ídolos da sociedade. Mas Farhadi não deixa de dialogar com preceitos do cinema do lendário Abbas Kiarostami, engajando-se em uma intertextualidade ao comentar sobre o ofício de diretor, principalmente na forte cena em que o funcionário da prisão tenta filmar o filho de Rahim numa tentativa de reconstituir a reputação perdida. A tentativa de extrair emoção e criar empatia é desconcertante, na cena mais forte do filme.

Um Herói é um filme que desconstrói a moral da sociedade enquanto comenta sobre a sensacionalização midiática, sem se excluir desse processo.

    Tiago ribeiro

    Editor, Redator e Repórter

    Tiago Ribeiro é estudante de Cinema da PUC-Rio, editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.