Biombo Escuro

festival do rio

Pequena Mamãe

por Alberto A. Mauad

19/12/2021; Foto : Divulgação

Pequena Mamãe (2021), se apoia em uma zona de conforto bastante favorável para Céline Sciamma. Pois é evidente o quanto a sua abordagem rememora o resto de sua cinematografia, tal qual as suas principais obras: Retrato de Uma Jovem em Chamas (2019) e Tomboy (2011). Trazendo à tona esse lado extremamente subjetivo, feminino e infantilizado em um contexto mais minimalista. Nesse sentido, o fato dele ser considerado um filme menor, também traz uma noção muito possibilitadora na sua produção, dando demasiado ênfase nas pequenas situações, na força das palavras que são ditas e as que não são, no luto e na reconciliação.

Se ainda no começo do longa vemos a protagonista, Nelly (Josephine Saenz), se despedindo dos outros pacientes do hospital, após a sua avó falecer, apenas dizendo “tchau”, percebemos, a priori, essa banalização do gesto imaturo. Contudo, mais para a frente da realização, é relatado pela garota um arrependimento à mãe, Marion (Nina Meurisse), dizendo que não teve uma última oportunidade de se despedir da avó. Curiosa, a mãe indaga à sua filha o que ela diria se tivesse essa circunstância, ela então responde: “tchau”. De um segundo ao outro, um mar de sentimentos que não precisam ser explicados se tornam tão visíveis, revelando esse jeito único e inocente, mas que faz parte essencial da menina lidar com a dor.

Portanto, esse universo materializado pela mise-en-scène de Sciamma se torna tão direto quanto profundo. Visualizamos isso, principalmente, quando a floresta, que dá vida a esse espelho transitório entre o passado e o presente, não se justifica - talvez ele só precisasse existir, e é isso. Permitindo que a reconciliação de Nelly ocorresse, para que ela pudesse se despedir como desejava da sua avó (Margot Abascal).

Além disso, esse encontro orgânico entre os tempos distintos promove, também, uma nova amizade da filha com a mãe criança (Gabrielle Sanz). Sendo assim, há a questão de poder conhecer mais uma vez o outro. De entender certos traumas e da capacidade de identificar a figura feminina da Nelly na Marion, percebendo sempre que cada uma dessas mulheres familiares acaba, involuntariamente, moldando e deixando um pedaço fundamental singular de suas psiques e traços nelas mesmas. Logo, a escolha para interpretação de duas irmãs reais só agrega a esse sentimento de semelhança, adicionando, assim, uma química bastante instigante entre as duas.

No fim, a autora cinematográfica francesa até explora e experimenta com uma decupagem eficientemente formalista, que por vezes opta por transparecer justamente movimentos sutis e delicados dos corpos em cena, revelando cômodos vazios, potentes e cheios de um luto implícito. Ademais, é interessante perceber instantes quase metalinguísticos, principalmente, nas sequências de brincadeiras teatrais entre as crianças. Todavia, a montagem, que, notoriamente , segue uma ideia clássica de transparência e frontalidade, se apropria também de ocasiões divertidas, como quando Nelly diz ao seu pai (Stéphane Varenne), que quer dormir rapidamente para se teletransportar ao dia de amanhã. E, brevemente, o corte – apenas a partir de duas palmas do personagem de Varenne –, deixa de ser invisível e se torna evidente ao olhar, tal qual o único elemento que realmente pode apresentar continuidade narrativa aquela janela que estamos experienciando.

Destarte, em Pequena Mamãe, Céline Sciamma consegue utilizar-se de uma articulação similar a outras películas de sua cinematografia, para trabalhar com êxito uma unidade fílmica que gira em torno de uma reconciliação infantilizada - que aprecia situações sucintas, e que dá força a um ambiente expositivamente feminino, no qual o fruto de seu vigor reside em toda à uma lèqua de gerações passadas. Vemos dessa maneira, sem rodeios, a congregação atemporal do passado e do presente, do processo de esvaziamento de uma casa que já foi tão viva inerentemente, mas em que hoje só restam as lembranças e esse sentimento oculto, um tanto assombroso, melancólico e saudosista, contemplado em cada canto do espaço físico.

    Alberto A. Mauad

    Redator

    Estudante de cinema na PUC-Rio, redator do Biombo Escuro e cineasta. Tem interesse pelas áreas de linguagem, história e autorismo cinematográfico.