Biombo Escuro

estreia da semana

Pajeú

por Tiago Ribeiro

28/03/2022; Foto: Divulgação

O que se ergue da destruição

O mais novo filme de Pedro Diógenes, Pajeú (2020), representa uma partida da ficção essencialmente não realista de Inferninho (2018). O longa trata do abstrato e expressionista a partir de elementos do tecido da própria realidade, optando pelo caminho da docuficção. Isso explica um pouco das novas concepções estéticas que estão em jogo nesse longa, que trata do esquecimento e extrema poluição do riacho que dá nome ao filme, e que foi de onde se começou a erguer a cidade de Fortaleza, onde se transcorre toda a ação do filme. 

O que não está para dizer que Pajeú abra mão da iconografia chocante tão presente no filme anterior, co-dirigido por Diógenes. O longa mais recente do diretor constrói passagens oníricas em que Maristela, interpretada por Fátima Muniz, se depara com a figura nauseante de um monstro que surge da água de esgoto que passa pelo riacho. Figura essa que adquire uma imanência sinistra quando em tela, lembrando algo como A Cor da Romã(1969) de Sergei Parajanov, enquanto ouvimos sons agressivos e industriais que fazem do sonho de Maristela um pesadelo premonitório. Temos com esse monstro a materialização do que foi feito com as origens da cidade, uma lembrança grotesca que se ergue da destruição causada pela ação humana.

O filósofo Noël Carroll faz, em "A filosofia do horror, ou Paradoxos do coração", uma distinção entre horror artístico, experienciado devido ao sentimento causado por eventos que são "perturbações da ordem natural" de um filme, e o horror real, situado pelas reações a eventos que pertencem à própria realidade. O que Diógenes consegue tecer, principalmente na primeira metade de seu filme, é um misto de ambos os sentimentos trabalhados por Carroll. As cenas perturbadoras do embate de Maristela com o monstro do riacho começam a se misturar com a intriga da personagem, que investiga a história do riacho Pajeú, entrevistando diferentes figuras reais de Fortaleza, "juntando os cacos" sobre o passado. Nesses momentos o filme assume uma linguagem aquém de documentários clássicos, mas sempre incluindo a figura de Maristela como mediadora de nossas interações com pesquisadores, militares e todo tipo de pessoa que saiba um pouco sobre a história e vida do riacho que virou esgoto. Nesses momentos o filme assume a cadência de um filme de investigação, conforme a trilha ressoa com acordes espaçados e Maristela navega pela tela gradualmente mais perturbada com a situação que encara. 

Ao mesmo tempo, Yuri, interpretado por Yuri Yamamoto, tenta alegrar Maristela da perturbação de seus sonhos e preocupações. As cenas com ambos os personagens vibram repletas da energia surrealista tão presente na encenação de Inferninho, principalmente as que ocorrem no karaokê. Entre a cantoria e as mesas de bar, Maristela e Yuri dançam livres ao som de um cover forró de Take On Me, até que o corpo dançante de Yuri começa a desaparecer da tela, aos poucos, ficando cada vez menos presente. Essa cena ocorre sem maiores estrondos, remetendo a algumas curvas tomadas por David Lynch em Twin Peaks: O Retorno(2017), impactando Maristela de forma profunda, que passa a agir como que assombrada pelo esquecimento. A partir daí o filme passa a ser mais direto com os entrevistados, tentando chegar à tensão coletiva que envolve o medo do esquecimento, para contrapor com o abandono e falta de conhecimento sobre o Pajeú.

Pajeú e sua docuficção com toques de horror pode ser um ótimo complemento para a metacomédia Saneamento Básico(2007), de Jorge Furtado. No entanto, acredito que o filme de Diógenes seja mais bem sucedido em esmiuçar a questão posta, a natureza executada pelo próprio homem. A mescla de realidade e ficção cabe como uma luva para a temática, e a engenhosidade estética do diretor faz de Pajeú uma grande afirmação artística sobre uma questão do real, que transcende até a situação específica tratada. E a mescla do horror artístico e do horror real de Noël Carroll movem um extremo temor que passa pelo longa, o de que toda água do mundo se torne como o esgoto que passa pelos canais do antigo rio de Fortaleza, e que sejamos dominados pelos monstros que nascem da poluição. 

Tiago ribeiro

Editor, Redator e Repórter

Tiago Ribeiro é estudante de Cinema da PUC-Rio, editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.