Biombo Escuro

Festival do rio

MARINHEIRO DAS MONTANHAS

por Tiago Ribeiro

14/12/2021; Foto: Divulgação

Em seu mais novo filme, Marinheiro das Montanhas (2021), o cineasta Karim Aïnouz relata num diário multilinguístico uma viagem em direção a seu passado. Utilizando-se de uma estrutura não estranha a sua filmografia, como no similarmente multi facetado Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009), Karim constrói uma narrativa a partir de um diário de viagem, na sua primeira visita ao país de origem de seu pai, a Argélia - mais especificamente na região montanhosa da Cabília. É o retorno para uma casa que ele nunca conheceu.

Um filme espelho e provavelmente de grande inspiração para Karim é Reminiscências de uma Viagem para a Lituânia (1972), do cineasta lituano-estadunidense Jonas Mekas, que fez seu filme inspirado por uma viagem similar a do brasileiro. Sem dúvida, o experimentalismo no tratamento das imagens de Mekas dialoga com alguns trechos de Marinheiro das Montanhas, que mergulha em delírios surrealistas disfomes quando o texto declamado pelo próprio diretor pede. 

Mas há uma profunda diferença entre ambos os filmes. Enquanto Reminiscências é um filme de reencontro, o filme de Karim é mais um filme sobre busca, sobre uma procura pelo desconhecido do próprio eu, extremamente íntimo e sem nenhuma espécie de estrutura formal que o molde. A imensa quantidade de material produzido é utilizada para o melhor efeito - fotografias, entrevistas, paisagens. Tudo serve aos relatos do autor, que explora as infinitas possibilidades de criação presente em suas imagens.

É interessante observar como, no decorrer de sua viagem, Karim passa de um estrangeiro que se destaca, para tornar-se alguém que pertence ao lugar. Esse processo começa a se intensificar quando ele chega na região da Cabília, e consegue encontrar com parentes de seu pai. Nesse momento, os relatos de Karim começam a ficar mais ternos, enquanto ele descobre cada vez mais sobre seu passado. Ele se conecta com as pessoas que tem o seu sangue, e o filme começa a tomar nova forma diante disso. Os momentos mais alegres e de pertencimento aparecem nesse trecho, algo similar ao filme de Mekas, mas também aliados a momentos sombrios, conforme o diretor desvela conexões do passado de sua família com a Revolução Argelina. A sequência na qual Marinheiro das Montanhas torna-se uma reencarnação de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968),estrelando uma jovem parente de Karim, é o ponto alto desses momentos.

O documentário de Karim Aïnouz acaba por ser a colagem de uma jornada em busca das próprias raízes. Um testamento sobre as milhares de vidas possíveis em uma única vida. O sonho passageiro de uma busca, que completa-se em si mesma.

    Tiago ribeiro

    Editor, Redator e Repórter

    Tiago Ribeiro é estudante de Cinema da PUC-Rio, editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.