Biombo Escuro
25ª Mostra de Tiradentes

Lavra

Correspondências

por Alberto A. Mauad e Tiago Ribeiro

02/02/2022; Fotos: Divulgação/ Esse texto é fruto de uma correspondência entre dois membros do site, que discutiram o filme Lavra ao longo de alguns dias através da troca de textos.

Alberto A. Mauad

Boa tarde! Acordei feliz em ouvir que você, meu amigo Tiago, havia assistido o filme Lavra (Lucas Bambozzi, 2021), exibido na Mostra de Tiradentes, que te recomendei. Mas me alegrou ainda mais saber que teremos essa oportunidade de trocar algumas cartas sobre as nossas impressões acerca da obra.

Bom, primeiramente, devo dizer, acho que essa película é menos específica do que ela aparenta ser em um primeiro momento. Seu mote inicial, claro, trata do crime ambiental ocasionado em 2015 em Mariana e das suas consequências. Todavia, durante a realização, percebemos que poderia se tratar de qualquer desastre do tipo, já que, expõe essa exploração brutal do capitalismo, que destrói tudo ao seu redor de todas as formas, onde percebemos que acontece desde o passado colonial e irá, consequentemente, ocorrer até no futuro, estando fadado a repetir a mesma história eternamente.

Além disso, acho interessante como Lucas utiliza mais de uma abordagem na sua mise-en-scène para percorrer este caminho. Vai desde uma jornada pessoal, da perda da identidade e de tentar recuperá-la, até as entrevistas que são bastante intimistas – fugindo um pouco do tradicional e lembrando demasiadamente, em certa medida, o mestre Eduardo Coutinho –, onde entendemos que a perda desse mundo, ocasionado pelo neoliberalismo, é a aniquilação da individualidade de todos. Assim, o que acaba nos restando? Talvez voltar ao coletivo? A resistência? Como vemos muito, durante Lavra, tais nobres atividades conjuntas acontecendo.

Ademais, é pertinente como na maior parte do longa a protagonista-narradora, não mostra a sua face, vemos constantemente a câmera acima do seu ombro ao conversar, ou, até mesmo, planos que imitam os olhos, vemos as mãos, os pés, de fato nos colocando nessa posição de presença voyeur, o que têm exacerbadamente haver com essa busca identitária. Como a Camila diz no discurso derradeiro: “É muito impressionante como as pessoas que não são atingidas diretamente ficam muito ignorantes.” Por isso, ela escolhe por nos colocar no centro de tudo, saindo da nossa zona de conforto, da ignorância. De algum modo, acaba sendo uma caçada por uma fração da identidade desse espectador também.

E você, Tiago, o que acha dessa impressão sobre identidade e coletividade? Como você vê essa escolha no método de Lucas? 

Tiago Ribeiro

Salve Alberto, muito bom poder trocar essas ideias contigo sobre um filme tão importante e visceral. Lavra é um argumento artístico que mescla o real e a ficção, infiltrando-se por debaixo do tecido da realidade com a história que conta. Irei tentar expandir ideias exploradas por você aqui e propor outras reflexões também. 

Acredito que essa sobreposição identidade e coletividade seja capturada com primazia pela personagem posta no longa. A Camila(Camila Mota) é mineira de Governador Valadares e imigrou para os EUA, e a sua história é uma de busca pelas raízes, de retorno a um passado esquecido e destroçado. Como você muito bem pôs, é uma história sobre a "perda de identidade e de tentar recuperá-la". E ver como se concretiza esse reencontro diante da câmera é algo de extrema beleza, conforme Camila vai conhecendo e conversando com os mais diversos tipos de pessoas que vivem nesse lugar do passado dela, e que sofreram as nefastas consequências da ganância capitalista.

E tudo toma uma dimensão diferente quando percebemos que através dessa interação fílmica, de ouvir as histórias dos que sofreram ali, a personagem mescla-se com a coletividade do lugar, com os desejos de seu povo. E o filme vai se moldando a partir disso, com fortes cenas captadas no meio da tragédia de Brumadinho, que ocorreu inesperadamente enquanto o filme era feito, e também com cenas na qual a personagem se integra em meio aos protestos contra a atuação das mineradoras. 

Mas outro aspecto de Lavra que gostaria de destacar aqui é o olhar, a forma como a câmera fita as paisagens. O brutalismo das crateras de escavação, que dão à terra um aspecto lunar, chocam os sentidos e evidenciam a dor sentida pela terra. A ganância capitalista é violenta, e as marcas que ela deixa são profundas. Fica claro que o que importa é o que pode ser tomado da terra a força, e não o que pode ser deixado. A possibilidade de convivência é esparsa, e o longa nada contra essa corrente buscando uma integralidade entre as pessoas com quem conversa e com as paisagens. Bambozzi consegue explicitar essa noção filosófica através de seu filme, unindo montagem, narração e a fotografia com câmera na mão, sempre em constante movimento.

Então Alberto, passo a palavra para você, amigo. O que pensa sobre o olhar empregado pelo filme? Bambozzi disse que foram utilizadas em torno de 7 tipos de câmeras, e ainda assim existe uma unidade em toda a obra. A obra é bem sucedida na tentativa de empregar essa integralidade entre povo e natureza?

Alberto A. Mauad

Tiago, como dito pela Camila em determinado momento, talvez a palavra “topofilia” seja, de fato, a melhor significação tanto para essa relação no impacto que as paisagens impõe aos telespectadores, como na própria ligação da protagonista e dos moradores da região com a destruição do seu meio ambiente.

Pude recordar demasiadamente de Iracema: Uma Transa Amazônica (Jorge Bodanzky e Orlando Sena, 1975). Principalmente no formalismo que ambos perpassam nesse road movie quase apocalíptico. Há uma desolação tremenda nos planos de dentro do carro, e cada vez que adentramos mais aquelas cidades, mais desesperador fica. Tal qual uma viagem ao fim de uma fração do mundo, o que não deixa de ser, o planeta e os habitantes perdem um enorme componente de si mesmos, vítimas inteiramente dessa ganância das hiper empresas exploratórias. 

No fim, acaba sendo uma obra bruta mesmo, difícil achar uma produção que revele o quão violentado se encontra tais terras, trazendo à tona realmente esse sentimento da conexão homem-lugar. E é bizarro, em vista de que até na anulação total dos subsídios destes férteis solos, a máquina incansável do neoliberalismo nos proíbe de analisar e contemplar tamanha desgraça, como bem ocorreu durante o longa, quando o segurança impede a gravação daquele horizonte. É um espaço que é – ou pelo menos deveria ser – público e sagrado por natureza, pertencente a todos os organismos e seres presentes no mundo, mas que é privatizado, invadido e tomado pela incessável extração, sem nem nenhum aviso prévio aos habitantes legítimos das redondezas.

Ademais, é algo que tanto diretamente como indiretamente transcorre. Como é exemplificado na visita de Camila para a casa de uma cidadã que mora ao lado dos trilhos do trem, onde aquele barulho insuportável para nós, do maquinário feroz e efêmero, infesta e ocupa ao redor todo o seu som inaceitável, sem nenhum perdão ou licença. É uma ferida gravíssima nos direitos básicos daquelas pessoas, além de ser uma invasão da propriedade privada. Percebe-se até como esses residentes já estão acostumados com tal situação perseverante, o que deveria, na realidade, ser tratado como ultrajante. Visualizamos tal abscesso abertíssimo também ainda no início de Lavra, naquela fila enorme de indivíduos em busca de água limpa para executar tarefas essenciais à convivência e ao corpo humano.

Gostaria, agora, de encaminhar a um discurso que se revela muito presente no longa também, principalmente por diálogos e narrações, que é esse passado devastador que está sempre fadado a retornar. Vemos que em diversos momentos, ela retoma ao tempo para falar dessa explorações que já ocorria a eras, desde a escravidão colonial – que já é uma catastrofe por si só. Acho que isso fica demasiadamente bem empregado quando ela filma as minas vazias, no encontro dela com o chefe indígena e até mesmo no próprio conhecimento que inúmeros dos moradores das pequenas cidades têm sobre a sua história.

Contudo, uma tecla fundamental que esclarece ainda mais esta questão, é a imposição de Carlos Drummond de Andrade na película. Onde, como exposto pelos seus respectivos versos, contos e crônicas, já se percebia o pavor que ele tinha com o futuro cinza dessa exploração industrial no Brasil. A sérios, é quase um eterno retorno. A história está fadada a ficar se repetindo. Presenciamos, infelizmente, isso acontecendo literalmente na produção, a partir da tragédia de Brumadinho.

Retorno a bola a tu, meu querido. Como você compreende que Lavra conecta essa relação de passado, presente e futuro? Como vê a obra empregando essa história antiga, insistente e trágica, os seus personagens e as entrevistas? Acredita que o filme consegue esclarecer o quanto essas fatalidades criminosas continuarão a acontecer? É bem pessimista mesmo boa parte da realização, não acha?

Tiago Ribeiro

Retorno aqui, meu amigo Alberto, para uma resposta alguns dias depois, com a 25ª Mostra de Tiradentes já encerrada. Com resquícios do gosto dos filmes exibidos na mostra, vou tentar aqui acrescentar ainda um pouco as ótimas colocações feitas por você.

Respondendo às suas perguntas, cito aqui a passagem do filme em que a Camila leva um dos entrevistados, o músico carnavalesco, ao local onde supostamente estão sendo construídas residências para os moradores afetados por toda a destruição acumulada pelas recorrentes tragédias que ocorreram no estado de Minas Gerais nesses últimos anos. O clima dessa cena é o de jornalismo investigativo, e integrada na história como um elemento documental de denúncia e verdadeiro distrato por parte dos responsáveis pela destruição da vida de tantas pessoas. Nos créditos, o filme deixa claro que as residências ainda não foram entregues, e que as forças públicas e políticas gravitam em torno de eximir de responsabilidade os perpetradores do capitalismo implacável e desumano que arruinou tantas vidas.

Acredito que Lavra tenha consciência dessa ausência de mudança real em relação ao tratamento do mundo natural por aqueles que o exploram. Mas não acredito que o filme recaia em uma brutalidade, apenas. Ela está no filme, afinal a situação vivida nas regiões do interior mineiro no qual se passa o longa é brutal. Mas acredito que o filme busque ternura ao capturar isso, busque uma forma de responder a esse absurdo e destratamento do planeta através da evolução de sua personagem. Como é citado por Aílton Krenak em sua entrevista, discutindo as vicissitudes que levaram a Floresta do Rio Doce a tornar-se conhecida como Vale do Aço, "a terra fala". É esse falar que a câmera de Bambozzi tenta capturar; e a personagem responde, apegando-se ao ativismo das populações da região que combatem a exploração da terra, e tornando-se mais consciente de sua conexão com sua terra natal. Mesmo que seja apenas apreciando uma canção do Clube da Esquina que toca enquanto ela viaja por uma estrada.  

Para elaborar sobre o que você desenvolveu sobre a sequencialidade temporal e a natureza cíclica que o longa parece vislumbrar na contínua exploração da terra, recorro a algumas afirmações feitas por Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina. O escritor uruguaio descreve a euforia que tomou a região quando foram descobertos os metais, e a consequente febre do ouro que acometeu os colonos que lá foram em busca das riquezas da terra. Galeano descreve as contradições entre o barroco rico e dourado e a pobreza e fome generalizadas que assolavam a região. A paisagem que Camila testemunha em Lavra é uma mais mecanizada, mas que é fruto da mesma ganância que moveu os colonizadores que secaram completamente a região de todo o seu ouro e diamantes. 

Acredito que Lavra é um filme que se revolta e contempla, que tinha que ser feito para oferecer uma visão além da tragédia do momento, além do que já foi contado sobre o que aconteceu. Para nos relembrar da gravidade de uma tragédia já distante, mesmo que transcorrido tão pouco tempo dela. E para, através de uma conexão de amizade com aqueles que sofreram, cumprir tanto o papel de registrar o seu sofrimento e ausência de resposta por parte do poder público e econômico, quanto da visão artística daqueles que construíram esse filme esperançoso sobre Minas Gerais.

Alberto A. Mauad

Redator

Estudante de cinema na PUC-Rio, redator do Biombo Escuro e cineasta. Tem interesse pelas áreas de linguagem, história e autorismo cinematográfico.

Tiago ribeiro

Editor, Redator e Repórter

Tiago Ribeiro é estudante de Cinema da PUC-Rio, editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.