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Filme de Maíra Bühler é contemplado com Hubert Balls Fund

por Ana Poquechoque

06/07/2022; Foto: Sinny Assessoria

“O Casamento”, filme escrito e dirigido por Maíra Bühler e assinado pela Abrolhos Filmes, com previsão de lançamento em 2024, é contemplado pela Hubert Bals Fund. A fundação é uma das mais importantes apoiadoras do cinema independente e de qualidade no mundo, e já premiou diversos filmes brasileiros, como “Sick, sick, sick”, de Alice Furtado e “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho.

Primeiro longa-metragem de ficção escrito e dirigido por Maíra Bühler, “O Casamento” é uma comédia satírica baseada em uma história real que se passa no Rio de Janeiro e Xingu (AM). A trama se passa em 1952 e retrata o choque entre dois mundos, no qual a indígena Diacuí viaja ao Rio de Janeiro para se casar com um homem branco. Esse amor, na época, se popularizou devido a uma fotorreportagem da revista O Cruzeiro. Depois ganhou as rádios e o cinejornais.

Maíra Bühler é uma cineasta brasileira e diretora de quatro documentários. O mais recente, “Diz a ela que me viu chorar” (2019), estreou no True/False Festival, nos Estados Unidos, e recebeu diversos prêmios ao longo do mundo. Como roteirista, o trabalho mais recente é “Cidade Pássaro”, que estreou na mostra Panorama, no Festival de Berlim. “O Casamento” será o primeiro longa de ficção no currículo.

Fundada em 2014 por André Sobral, em São Paulo, a Abrolho Filmes e uma produtora audiovisual que realiza obras com temáticas que evidenciam questões globais. Sua marca é juntar a excelência artística com o alcance do público. Ela é Produtora Associada dos longas “Call Me By Your Name” (2017), vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e “A Ciambra” (2017), que estreou na 70ª edição do Festival de Cannes. Além disso, produziu o longa documentário “Chico Rei Entre Nós” (2020), vencedor do Prêmio do Público de Melhor Documentário Brasileiro e Menção Honrosa do Júri na 44ª Mostra Internacional de São Paulo.

Conversamos com Maíra Bühler sobre a produção de seu filme.

1.Como você chegou a essa história que vai contar em seu filme?

Estudei Ciências Sociais na USP, depois fiz mestrado em antropologia. Desde que me conheço por gente tenho interesse nas questões relativas aos povos indígenas.

Conheci e me apaixonei por essa história quando ainda era estudante e fui ao Xingu pela primeira vez, há 15 anos, para captar imagens para um filme do antropólogo Aristóteles Barcelos Neto sobre a visão xamânica do mundo dos espíritos.   Alguns anos depois, em 2009, voltei a entrar em contato com ela quando coordenei a pesquisa para o roteiro do longa metragem “Xingu” do Cao Hamburger, período no qual viajei diversas vezes para distintas aldeias, passei longo tempo fazendo pesquisa de arquivo e mergulhei intensamente nas relações entre brancos e indígenas naquela região. Mais recentemente essa história voltou até mim pelas mãos do produtor André Sobral que, tendo-a encontrado por outro caminho totalmente diferente, também se apaixonou por ela a ponto de me procurar para desenvolvê-la. Fiquei muito feliz com o convite e, como aprendi com os indígenas do Xingu que “nada é por acaso” entendi que o convite do André me convocava a enfrentar esse novo desafio. 


2.Quais os desafios de trabalhar com uma história que ficou tão notória publicamente na época em que aconteceu?

Os desafios são muitos. A história do casamento entre um homem branco e uma mulher indígena que virou um folhetim, pode ser contada de muitos pontos de vista. O do homem, o da mulher, o do grande articulador da versão pública do casamento, o do Estado, o do xamã, o dos inimigos... Então um desafio é entender como contar essa história – se de um ponto de vista apenas, se articulando múltiplas perspectivas e como encontrar o meu lugar como autora nesse complexo terreno. Outro desafio, totalmente conectado ao primeiro, é o de lidar com todas as expectativas que contar uma história como essa envolve. Além disso está o desafio de tratar com cuidado das questões éticas e políticas que se colocam na construção deste enredo. Também diria que me sinto desafiada por como lidar com a pesquisa: é preciso estar perto, mas também é preciso estar longe dela para que o filme se sustente, para que possamos voar cinematograficamente. Ou seja, não é fácil encontrar a “boa distância”. Por fim, o maior de todos, é o desafio de encontrar as parcerias certas. Nesse caso, não tenho dúvidas, com os próprios indígenas.

 

3. A história de seu filme nasceu como uma fotorreportagem narrada como folhetim, e depois reverberou pelas rádios e por cinejornais. Como trabalhar para traduzir para a linguagem fílmica as diferentes mídias no qual a história foi contada?

Essa é uma pergunta difícil de responder pois ainda estou começando a mergulhar nisso tudo. O que posso te dizer agora é que as diferentes texturas são parte constitutivas dessa história e que ela será tão melhor quanto mais aberta eu consiga me manter a esses “ruídos” causados não apenas pelas diferentes mídias, mas também pelas diferentes cosmologias e gêneros narrativos que constituem uma história de encontro e desencontro entre brancos e indígenas.  

4.Por que transformar uma história real em uma comédia satírica, ao invés de trabalhar com o documental?

Por que não? E o que é uma “história real”? Será que existe só uma história constituindo esta realidade? Será que não existem mais realidades que constituem essa história? É parte da complexidade de trabalhar num filme que trata do choque entre o mundo branco capitalista e os diferentes mundos indígenas, aprender que não existe apenas uma realidade, mas múltiplas e em movimento constante. Por isso, neste caso, talvez a melhor forma de fazer um “documentário” seja fazer uma ficção. 


5.Quais suas expectativas para trabalhar em seu primeiro longa de ficção?

Atualmente são bem concretas, não é fácil levantar um filme como esse, o que mais quero é conseguir financiar, filmar e lançar. Parece tão básico, né? Mas num país como o Brasil atual, não é nada fácil.  


Ana Poquechoque

Redatora

Ana Poquechoque é estudante de Jornalismo na PUC-Rio. Seus interesses pessoais são jornalismo cultural, literatura brasileira e comunicação audiovisual.