Biombo Escuro

fESTIVAL DO RIO 

DRIVE MY CAR

por Tiago Ribeiro

13/12/2021; Contém Spoilers, Foto: Divulgação

O cinema de Ryusuke Hamaguchi é um de extremo fascínio pelas palavras, pelos rostos e pelo corpos. As imensas possibilidades de se performar se desdobram em um cinema de conversas e de interação humana, no qual cada vibração que emana da tela aponta para o mundo interior de seus personagens e sobre as verdades mais profundas de seus corações. Em seu outro filme do ano, A Roda da Fortuna (2021), a inerente natureza humana da performance entrelaça três contos mundanos que abordam a vontade de reviver o passado e a tendência cíclica de todas as coisas. 

Em Drive My Car (2021), o escopo é diferente, tendo-se uma história única dividida em duas partes. Sendo uma adaptação do conto homônimo de Haruki Murakami, algo dos temas do autor japonês naturalmente traduz-se para o filme. A morte de pessoas amadas persiste nos vivos, e as mulheres típicas do autor também. Talvez o maior símbolo do material original seja o da personagem de Oto Kafuku (Reika Kirishima), uma personagem com olhar profundo e sensual que parece em partes iguais assombrado e sereno. Logo no plano de abertura, na qual vemos apenas sua silhueta olhando para nós enquanto ela conta uma história, com um imenso céu de alvorada ao fundo, sua presença fica engravada, parecendo estar por trás de cada plano dos minutos restantes do filme. 

E quem é mais perseguido pelas reminiscências de Oto é Yûsuke Kafuku (Hidetoshi Nishjima), marido de Oto. Ambos são figuras do mundo artístico, ela roteirista e ele ator de teatro, assombrados pela morte recente de uma filha pequena. Oto ajuda Yûsuke a memorizar as falas de suas peças, que ele grava para ouvir enquanto dirige. Ouvir a gravação do ensaio com a esposa é essencial para o ritual de deslocamento de Yûsuke, que ele sempre complementa com suas falas. Afinal, nos deslocamentos diários que todos fazemos, todos nós nos engajamos em uma certa ritualística. Ou, o que fazemos e pensamos enquanto estamos entre os lugares torna-se a essência do deslocamento.

Por isso o Saab 900 vermelho de Yûsuke tem uma presença tão forte no longa. Hamaguchi faz uma espécie de road movie, como Paris, Texas (1984) e Estranhos no Paraíso (1984), mas um menos sobre a estrada em si, e mais sobre o que nutrimos enquanto estamos na estrada. O fim do prólogo é enunciado com a morte de Oto, que continua vivendo no restante do filme dentro do fascínio dos personagens que foram tocados por suas histórias. A introdução da personagem de Misaki Watari (Tôko Miura) dá continuidade aos eventos do filme. Ela torna-se a motorista de Yûsuke, enquanto ele trabalha para dirigir uma adaptação da peça Tio Vanya, de Chekhov, já popularmente interpretada por ele anteriormente.  Misaki integra-se ao ritual de Yûsuke, sempre acompanhando intrigada enquanto Yûsuke pratica as falas ouvindo a fita gravada por Oto. A fita de Oto começa a soar como um mantra do mundo dos mortos.

As cenas de ensaio da peça começam a engajar o filme em momentos metalinguísticos fascinantes, enquanto cada membro da peça encontra dificuldades em se encontrar nos diálogos e nas interações da peça. A personagem de Lee Yoon-a (Yoo-rim Park) exemplifica essas dificuldades, visto que interpretará em libras. O trabalho de Yûsuke em torno das barreiras de linguagem é bastante interessante. O jogo das performances de Hamaguchi é posto à prova enquanto os personagens tentam se encontrar em terreno comum. Mas tudo começa a se traduzir, e no final nos é dada uma cena sublime, na qual Yoon-a performa um monólogo de Tio Vanya em libras. A formação dos símbolos se assemelha à conjuração de um feitiço, e o verdadeiro potencial dos recursos performáticos é mostrado, enquanto o texto de Chekhov é declamado em libras.

Drive My Car é um filme que aborda inúmeros temas, a dor da perda e o incomensurável potencial de tradução das linguagens. Sua linguagem é simples e direta, basicamente construída em torno de conversas e de encontros. Toda a força de evocação da expressão humana aparece aqui, formando um épico mundano sobre a dificuldade de trazer os outros para a sua história, para seus mantras e rituais, sobre a dificuldade de mostrar para os outros o que está por de trás das máscaras, e de aceitar a realidade que é mostrada dos outros. É impossível conhecer o coração dos outros, mas podemos conhecer o que eles decidem nos mostrar, e isso é o melhor que podemos esperar. Yûsuke e Misaki encerram o filme formando um forte laço quando decidem trocar suas histórias, seus passados traumáticos e seus erros. Quando eles decidem viajar de volta a casa de infância de Misaki, passando pelos extensos horizontes de neve, os dois parecem conectados O Saab 900 vermelho de Yûsuke já é dos dois, pois ele representa suas histórias. Do fundo da mágoa que nutre da mãe, e do arrependimento com que convive por não ter feito mais para salvá-la, Misaki a perdoa e diz "mesmo que ela estivesse fingindo, sei que era do fundo do coração". É o melhor que podemos esperar.

    Tiago ribeiro

    Editor, Redator e Repórter

    Tiago Ribeiro é estudante de Cinema da PUC-Rio, editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.