Biombo Escuro

27º Festival É Tudo Verdade

Diários de Mianmar

por Tiago Ribeiro

03/04/2022; Foto: The Myanmar Film Collective

Quando os corvos dominam as ruas

Um documentário feito inteiramente por pessoas anônimas, com personagens com rostos ocultos e vivendo dentro de seus próprios mundos, sufocados por um governo opressor e ilegítimo, fruto de um golpe militar. É esse o tom em que se desenrola Diários de Mianmar(2022), provavelmente um dos filmes mais importantes do século XXI, construído quase que inteiramente a partir de pequenos vestígios de narrativas criadas e recuperadas para o filme. 

Em certo sentido, encontram-se inúmeras semelhanças entre este filme e A Praça Tahrir (2013), da cineasta Jehane Noujaim, um documentário similarmente feito pelo acúmulo das narrativas de um processo político que marca profundamente um país. A distinção entre os dois filmes é feita na medida em que o egípicio retrata a revolução a partir da ótica dos movimentos sociais, que promoveram a queda de Hosni Mubarak e inauguraram a série de movimentos que ficaram conhecidos como "Primavera Árabe". Já o filme birmanese trata de uma revolução em andamento, realizada predominantemente pelo Movimento de Desobediência Civil de Mianmar, que até o momento foi frustrada pelas ações contrárias aos direitos humanos dos militares golpistas que destituíram o presidente legitimamente eleito U Win Myint e a secretária de estado Aung San Suu Kyi. Esta última se tornou um dos maiores símbolos do movimento revolucionário, junto da saudação de três dedos originária da franquia Jogos Vorazes.

Logo na abertura dos diários birmaneses vemos já imagens completamente absurdas, uma das mais impressionantes de 2021, na qual Khing Hnin Wai faz um vídeo performando uma espécie de dança aeróbica, enquanto ao fundo camburões dos militares invadiam a via ao fundo para executar o golpe de estado. O que começou neste vídeo viral trouxe consequências estrondosas para a sociedade do país, que sofreu intensa repressão violenta, mesmo sendo em sua maioria contrária ao regime militar.

O resto de Diários de Mianmar busca traduzir o sentimento que passa por aqueles que sofreram com tais consequências. A maioria dos relatos é de pessoas sem rosto, anonimizadas tanto para se ocultar da ditadura truculenta como por sofrer com a ausência de liberdade de pensamento e expressão. Ouvimos suas dores, seus pesares, e suas pequenas tentativas de resistência dentro de seus próprios espaços, únicos lugares em que ainda é permitido ser em Mianmar. Vemos rostos desfocados fitando o mundo caótico fora das janelas, dominado pelos corvos.

Para além de conter pequenos sussurros e resquícios das narrativas sufocadas pela ditadura, vemos os cineastas anônimos que fizeram esse filme aproveitarem-se da infinitude de narrativas produzidas pelo poder do registro das câmeras de celular, fenômeno similar ao ocorrido na Primavera Árabe. Os registros dos crimes, das demonstrações públicas de valentia e da resistência da população povoam o documentário, que nos mostra o objetivo e o subjetivo do que aconteceu e do que ainda está acontecendo no país. Diários de Mianmar é um documentário de extrema importância política, que nos rememora da infinita importância do registro fílmico como forma de expressão artística e de resistência diante de sistemas opressores de sociedade.


    Tiago ribeiro

    Editor, Redator e Repórter

    Tiago Ribeiro é estudante de Cinema da PUC-Rio, editor, redator e repórter do Biombo Escuro desde 2021. Seus interesses pessoais são teoria cinematográfica, desenho de som e animes.